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Carta Aberta dos Residentes e Médicos(as) da UNIFESP/EPM à Sociedade e à Comunidade Médica

V Vladimir Almeida - Residente psiquiatria Unifesp · BR

Carta Aberta dos Residentes e Médicos(as) da UNIFESP-EPM à Sociedade e à Comunidade Médica

São Paulo, 2026

 

Nós, médicas, médicos e médicos residentes da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM), atuantes no Hospital São Paulo (HSP) e em nossos territórios de ensino e assistência, vimos por meio deste abaixo-assinado apresentar nosso posicionamento público diante do segundo turno das eleições presidenciais de 2026. O objetivo desta carta é reafirmar o compromisso ético e científico da medicina com a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), alertando a sociedade sobre os riscos do retrocesso nas políticas sanitárias do país.

 

O Hospital São Paulo atende uma população vulnerável e majoritariamente dependente de serviços públicos. A alta prevalência de complicações avançadas em doenças crônicas não transmissíveis reflete as imensas barreiras de acesso da nossa população à prevenção primária e ao acompanhamento continuado. Afinal, a efetividade do ato médico no balcão do hospital depende diretamente do financiamento adequado da rede pública e da garantia de condições dignas de vida para os pacientes.

 

Entretanto, a gestão do Governo Federal entre 2019 e 2022 contrapôs-se frontalmente às diretrizes das organizações internacionais de saúde e aos consensos científicos consolidados. No âmbito orçamentário, a manutenção estrita do Teto de Gastos (Emenda Constitucional 95) reduziu a participação da União no financiamento global da saúde, sobrecarregando estados e municípios. Paralelamente, o congelamento dos valores da tabela do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS) inviabilizou financeiramente hospitais filantrópicos, santas casas e hospitais universitários federais — como o próprio HSP/UNIFESP —, restringindo a oferta de exames e procedimentos cirúrgicos especializados. Como reflexo dessa política de cortes, a Proposta de Lei Orçamentária Anual (PLOA) enviada pelo Executivo para 2023 reduziu em aproximadamente 45% os recursos para prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer, direcionando verbas para o repasse de emendas parlamentares sem transparência. Consequentemente, instituições de referência técnica, a exemplo do Instituto Nacional de Câncer (INCA), sofreram sucessivos contingenciamentos que atrasaram a renovação de equipamentos essenciais de radioterapia no SUS.

 

Durante a emergência sanitária da COVID-19, essa condução omissa e negacionista cobrou um preço trágico: o Brasil registrou mais de 700 mil mortes, concentrando cerca de 12% dos óbitos globais da doença, a despeito de abrigar apenas 2,7% da população mundial. O desacreditamento constante do isolamento social atrasou medidas cruciais de mitigação. Em contrapartida, houve o direcionamento injustificado de recursos públicos do Ministério da Saúde e do Exército para a fabricação e distribuição em larga escala de cloroquina — em detrimento do abastecimento de insumos básicos da rede —, gerando grave prejuízo financeiro e distorção técnica. Além disso, as sucessivas recusas a ofertas formais de vacinas ao longo de 2020 retardaram o início da campanha nacional de imunização. Esse cenário de desorganização foi agravado pela instabilidade política no Ministério da Saúde, que passou por quatro trocas de ministros e teve seu comando entregue a uma gestão militar sem qualificação técnica em saúde pública. O ápice dessa falha logística e de monitoramento resultou no colapso do abastecimento de oxigênio hospitalar no Estado do Amazonas, culminando em mortes por asfixia em leitos de internação e UTI.

 

Ao mesmo tempo, a atenção primária e os programas de assistência social sofreram desmontes profundos. A desarticulação do Programa Mais Médicos e os atrasos na sua recomposição deixaram milhares de equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) desfalqueadas no interior e nas periferias urbanas. No campo da assistência farmacêutica, a proposta orçamentária para 2023 previu o corte de 59% nos recursos do Programa Farmácia Popular, ameaçando o acesso gratuito a medicamentos para hipertensão, diabetes e asma de mais de 20 milhões de brasileiros. Em paralelo, o veto presidencial à distribuição gratuita de absorventes higiênicos para estudantes de baixa renda e mulheres em extrema vulnerabilidade atingiu diretamente a saúde reprodutiva e a dignidade humana.

 

         A retração de investimentos públicos e a desestruturação técnica atingiram também o modelo assistencial e os grupos historicamente vulnerabilizados. Na saúde mental, a Política Nacional sofreu reformulações regressivas que despriorizaram a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), redirecionando verbas públicas do modelo comunitário e antimanicomial para o financiamento de leitos em hospitais psiquiátricos e comunidades terapêuticas privadas. Já na assistência aos povos originários, a desaceleração de políticas territoriais e a instabilidade na Secretaria de Saúde Indígena (SESAI) agravaram a vulnerabilidade sanitária e epidemiológica de diversas etnias. Essa realidade é testemunhada diretamente pelo Ambulatório de Saúde dos Povos Indígenas (ASPIN/UNIFESP), vinculado ao histórico Projeto Xingu, que há décadas presta atendimento especializado de média e alta complexidade a pacientes provenientes de mais de 30 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI).

 

​A prática da medicina e a manutenção da saúde pública não ocorrem em um vácuo neutro ou desconectado das decisões políticas e orçamentárias do Estado. A atuação médica no Hospital São Paulo e nos territórios assistenciais da UNIFESP demonstra de forma inequívoca que a eficácia do ato médico, a prevenção de agravos e a preservação de vidas dependem fundamentalmente da existência de um Sistema Único de Saúde (SUS) financiado, tecnicamente autônomo e estruturado sobre evidências científicas.

 

Em suma, a prática da medicina e a manutenção da saúde pública não ocorrem em um vácuo neutro, nem estão desconectadas das decisões políticas do Estado. A atuação diária no Hospital São Paulo e nos territórios da UNIFESP demonstra que a eficácia do ato médico e a preservação de vidas dependem impreterivelmente de um SUS bem financiado, tecnicamente autônomo e fundamentado na ciência.

 

Diante do segundo turno das eleições de 2026, reafirmamos que o exercício profissional da medicina é indissociável da defesa intransigente da ciência, da responsabilidade sanitária e do direito constitucional à saúde. Por essas razões, nós, residentes, médicas, médicos e docentes da UNIFESP/EPM, manifestamos nosso repúdio ao desmonte das políticas públicas e conclamamos a comunidade médica e toda a sociedade a alinharem seu voto com o fortalecimento do SUS, a integridade das instituições e a defesa da vida.

 

Assinam este abaixo-assinado:

 

(Membros do Corpo Clínico, Médicos(as) Residentes e Docentes da UNIFESP/EPM)

 

 

 

 

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